Maria de Lurdes Fonseca

Blogue académico, profissional e pessoal

Arquivo para Curso Livre de Marketing Farmacêutico

Actividades de Formação AEDES/ CES-ISCSP 2009-2010

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O CES-ISCSP (Centro de Estudos de Sociologia do ISCSP) e a AEDES (Associação de Estudos de Desenvolvimento Económico e Cultural) associaram-se na promoção de cursos de formação profissional orientados para a qualificação técnica complementar dos alunos do ISCSP-UTL, bem como para a formação em áreas da sua especialidade, do público em geral.

O Plano de Actividades de Formação que vos dou em primeira mão a conhecer, integra 14 Cursos de Formação que decorrerão de Janeiro a Setembro de 2010. Poderão, caso queiram, manifestar o vosso interesse, desde já, por algum. Nessa eventualidade, receberão, sem compromisso, informações no mês que anteceder o início da acção.

Antes de apresentar as acções, algumas notas:

1) Todos os cursos são leccionados por especialistas com experiência profissional lata e reconhecida nas áreas em que intervêem;

2) A propina dos cursos é paga em duas ou três vezes consoante a duração da acção e integra: material básico de participação (papel, material de escrita, pasta e águas); coffee-breaks em número adequado à dimensão e número de sessões; dossier do curso com todos os materiais teóricos, teórico-práticos e práticos; cd-rom com a totalidade dos conteúdos da formação;

3) Os cursos realizar-se-ão desde que exista um número mínimo (10 ou 15 formandos) e nunca admitirão mais que 30 formandos por acção;

4) Salvo indicação pontual em contrário, os Cursos não possuem pré-requisitos. Eles são, aliás, dirigidos ao público em geral;

5) Os cursos decorrem no ISCSP-UTL, no Pólo Universitário da Ajuda;

6) Os alunos activos nos Laboratórios CES-ISCSP e Investigadores do CES-ISCSP beneficiam de um desconto de 10% na propina total;

7) Há condições especiais para inscrições na segunda e na terceira acção de formação, bem como para participações empresariais colectivas.

Deixo desde já uma lista das acções previstas. Em seguida, deixarei alguns dados adicionais:

1. Eixo Teórico: Marketing.

a. Métodos e Técnicas de Marketing Research (30 horas).

b. O Plano de Marketing (20 horas).

2. Eixo Teórico: Jornalismo.

a. Técnicas de Jornalismo Digital em Ambiente Multimédia (50 horas).

b. Técnicas de Condução e Registo da Entrevista Jornalística (30 horas).

3. Eixo Teórico: Sociologia.

a. Desenho e Desenvolvimento de Projectos de Sociologia Aplicada (40 horas).

b. A Redacção dos Resultados da Investigação Social (20 horas).

4. Eixo Teórico: Marketing Farmacêutico.

a. Conceitos Fundamentais de Marketing Farmacêutico (20 horas).

b. O Marketing-Mix do Sector Farmacêutico (30 horas).

5. Eixo Teórico: Gestão da Saúde.

a. Estratégias de Promoção de Bens e Serviços de Saúde (20 horas).

b. Pesquisa Epidemiológica e Planeamento de Sistemas de Saúde (50 horas).

6. Eixo Teórico: Webdesign e Multimédia.

a. Introdução ao Webdesign com Dreamweaver (40 horas).

b. Multimédia: fundamentos de captação e edição de fotografia, som e vídeo (50 horas).

7. Eixo Teórico: Análise de Conteúdo.

a. Métodos de Representação e Análise da Internet (20 horas).

b. Análise de Conteúdo com Recurso a Softwares Especializados (40 horas).

Para mais informações contactar o CES-ISCSP através do seguinte e-mail: ces@iscsp.utl.pt.

NOTA: Todos os lucros destas acções de formação revertem a favor do CES-ISCSP, em particular dos Laboratórios Pedagógicos e, desde logo, para o equipamento técnico do Laboratório de Jornalismo Multimédia. Vários formadores abdicaram da totalidade ou parte do seu pagamento a favor dos Projectos Pedagógicos do CES-ISCSP, o que muito agradecemos.

Pré-Apresentação das Acções de Formação AEDES/ CES-ISCSP – Eixos Teóricos Marketing Farmacêutico e Gestão da Saúde

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Conceitos Fundamentais de Marketing Farmacêutico

NÚMERO DE HORAS: 20 horas

ESTRUTURA BÁSICA DE CONTEÚDOS:

1. O Marketing, o Marketing da Saúde e o Marketing Farmacêutico;

2. As Especificidades do Sector Farmacêutico em Portugal e no Mundo;

3. As Especificidades do Produto Medicamento e seus correlatos;

4. Introdução às Especificidades do Marketing-Mix Farmacêutico;

5. Sistemas de Saúde e Mercado(s) Farmacêutico(s) em Portugal.

CALENDARIZAÇÃO PREVISTA:

Janeiro e Fevereiro de 2010.

PROPINA:

280€.

O Marketing-Mix do Sector Farmacêutico

NÚMERO DE HORAS: 30 horas

ESTRUTURA BÁSICA DE CONTEÚDOS:

1. O Sistema de Saúde e o Sistema Público de Gestão do Medicamento em Portugal;

2. A Indústria Farmacêutica em Portugal e a Regulamentação da sua Actividade;

3. Estratégia e Táctica de Marketing na Indústria Farmacêutica Nacional e Internacional;

4. O Mix de Produto, o Mix de Preço, o Mix Promocional e o Mix da Distribuição em Portugal.

CALENDARIZAÇÃO PREVISTA:

Março e Abril de 2010.

PROPINA:

330 €.

Estratégias de Promoção de Bens e Serviços de Saúde

NÚMERO DE HORAS: 20 horas

ESTRUTURA BÁSICA DE CONTEÚDOS:

1. O Bem Saúde e o seu valor económico, cultural e social;

2. Especificidades dos bens e dos serviços de Saúde;

3. Criar Mercados de Saúde;

4. Expandir Mercados de Saúde;

5. Aprofundar Mercados de Saúde.

6. Comunicar a Saúde.

CALENDARIZAÇÃO PREVISTA:

Maio de 2010.

PROPINA:

280 €.

Pesquisa Epidemiológica e Planeamento de Sistemas de Saúde

NÚMERO DE HORAS: 50 horas

ESTRUTURA BÁSICA DE CONTEÚDOS:

1. Epidemiologia Teórica.

1.1. Princípios e Métodos de Epidemiologia Moderna;

1.2. As Principais Medidas Epidemiológicas;

1.3. Epidemiologia Descritiva e Epidemiologia Analítica;

1.4. Métodos e Medidas Estatísticas ao Serviço da Epidemiologia.

1.5. Planear, Conduzir e Analisar Estudos Epidemiológicos.

2. Epidemiologia Aplicada à Administração de Serviços de Saúde.

2.1. A Validade e a Generalidade dos Dados Epidemiológicos.

2.2. A Tradução dos Dados Epidemiológicos em Planos de Previsão e Gestão de Recursos Normais.

2.3. A Tradução dos Dados Epidemiológicos em Planos de Previsão e Gestão de Recursos Contingenciais.

2.4. Epidemiologia e Adaptação Administrativa.

CALENDARIZAÇÃO PREVISTA:

Junho e Julho de 2010.

PROPINA:

420 €.

Para mais informações contactar o CES-ISCSP através do seguinte e-mail: ces@iscsp.utl.pt.

V Conferência da Indústria Farmacêutica

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Mais informações sobre o evento aqui.

Curso Livre em Marketing Farmacêutico: quem somos e novas inscrições.

Caros:

Somos já 13 inscritos entre estudantes e profissionais, meus alunos, ex-alunos, alunos das faculdades onde lecciono e pessoas sem qualquer ligação ao ISCSP e ao ISCTE.

Somos também de diversas áreas, como esperaria, dado falarmos de Marketing Farmacêutico. Assim, para além dos mais numerosos (9 de Comunicação Social e Marketing), temos também colegas de Farmácia, Biologia, Engenharia Biológica e Alimentar e Enfermagem. São todos bem-vindos, até porque a diversidade de formações e experiências é sempre uma mais-valia!

As inscrições continuam abertas. Inscrevam-se para terem acesso a todas as actividades e discussões! Teremos mais novidades brevemente.

A lição 2 já está disponível.

Um abraço a todos!

CLMF Lição 2: Um Mercado ético – um Marketing previdente e cauteloso.

Todos os direitos reservados. Todas as citações devem referenciar a fonte. Reproduções apenas mediante autorização escrita do autor (mfonseca@iscsp.utl.pt). 

 

Na lição anterior afirmámos ser o Marketing Farmacêutico um Marketing como qualquer outro Marketing de Produtos no que aos seus fins respeita, diferindo de outras especialidades da disciplina, apenas em função da especificidade dos seus meios.

Esta é uma afirmação que obviamente não serve apenas para comparar o Marketing Farmacêutico com a generalidade dos Marketings de Produto, mas que é verdadeira para o confronto das diversas actividades de Marketing especializadas num contexto particular – a pretensão de vender iogurtes ou filtros de óleo identificar-se-á também pelos fins; diferirá contudo pela particularidade da escolha e forma de utilização de meios.

O mercado farmacêutico divide-se em dois segmentos essenciais: os medicamentos sujeitos a receita médica (MSRM) e os medicamentos não sujeitos a receita médica (MNSRM). Há quem sugira a sua divisão em três segmentos: MSRM, MNSRM e Genéricos, o que resulta contudo numa aberração conceptual, dado os medicamentos genéricos poderem ou não ser sujeitos a receita médica. Quanto muito, pode-se afirmar que, quanto à restrição do acesso, os medicamentos podem ser ou não sujeitos a receita médica, e que, quanto à detenção de patente, podem beneficiar ou não dessa protecção.

Os medicamentos não sujeitos a receita médica, também chamados OTC (“over-the-counter”) devido ao facto de se poderem apresentar e vender sem constrangimentos ao consumidor, são os que menos especificidades possuem face aos restantes Marketings de Produto, nomeadamente face aos chamados produtos de Grande Consumo. 

Esse facto determina que em Portugal os ”marketeers” que trabalham com produtos OTC’s e com MSRM são em geral: integrados em departamentos diversos, provenientes de experiências profissionais diversas e especializados em actividades de Marketing diversificadas. Porquê? Essencialmente porque os primeiros comunicam geralmente para o grande público e os segundos para médicos e outros profissionais de saúde; porque os primeiros podem recorrer à publicidade de massa, e os segundos apenas a publicidade especializada e ao marketing directo (a Lei da Publicidade, como analisaremos mais tarde em detalhe, proibe a publicidade a MSRM dirigida ao consumidor) e porque os primeiros são geralmente buscados entre quem tem experiência em Marketing de Grande Consumo e os segundos entre quem provém da área da Saúde ou se especializou, muito cedo, em actividades de Marketing ligadas ao sector.

Verifica-se aliás que as carreiras destes dois tipos de profissionais especializados tendem a comunicar-se pouco. Dada a especificidade técnico-científica das duas actividades verifica-se mesmo que os “marketeers” dedicados aos OTC se identificam mais como “marketeers” que como profissionais da indústria farmacêutica (mudando por exemplo, mais recorrentemente, de área/ indústria de trabalho), e que os “marketeers” dedicados aos MSRM tendem a menos se identificar como profissionais de Marketing que como profissionais “farmacêuticos”.

Neste curso endereçaremos sempre os MSRM, salvo nas lições em que tratarmos especificamente de OTC’s. Daqui em diante pois, falaremos de Marketing Farmacêutico como sinónimo de Marketing Farmacêutico de MSRM. Isto justifica-se tanto pelo incomparável maior número de especificidades que os MSRM têm, em termos do seu Marketing, face aos restantes Marketings de Produtos, exigindo maior especialização dos seus profissionais, quando provenientes de formações generalistas em Comunicação e/ou Marketing, como pelo facto de os OTC’s serem um segmento muito menos interessante para a indústria: em valor, por exemplo, os MSRM representam ainda cerca de 90% das receitas que o mercado farmacêutico gera, o que deriva tanto do número de produtos disponível, como do considerável mais baixo preço médio dos OTC’s face aos MSRM.

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Regressando ao tema da nossa lição de hoje, é sintomático o facto de o mercado dos MSRM ser também chamado “Mercado ético” e o mercado dos MNSRM “Mercado não ético”. Esse facto indicia a primeira lição que o profissional de Marketing Farmacêutico tem de reter: “Marketing Farmacêutico é Ética”, da mesma forma que “Mercado Farmacêutico é Ética”.

Isto quer dizer que, fora da compreensão e respeito pelos dilemas éticos sociais, políticos e profissionais que se jogam na prática da Saúde e na comercialização dos bens e serviços que lhe estão associados, não há como fazer Marketing Farmacêutico eficaz.

Costumo dizer aos meus alunos, como “teaser”, que não há mercado mais ético que o Mercado Farmacêutico. Explico depois o que digo, perante a chuva de objecções que invariavelmente pulula, que não o digo necessariamente como juízo valorativo sobre as condutas do sector, mas como constatação do seguinte facto: tudo o que é farmacêutico implica especialmente dilema e percaução éticos - quem o ignore não sobrevive no mercado.

Não deixo contudo de acrescentar depois que, de facto, poucas indústrias agem de forma mais cautelosa, no que à ética dos seus actos respeita, isto é, de forma tão ética; em poucas a dúvida sobre a ética do comportamento pode ter efeitos tão calamitosos no sucesso e sobrevivência do negócio.  

O acesso à prática da produção e comercialização de medicamentos é apertadamente regulada, controlada e restringida, e os medicamentos têm de ser aprovados (para se introduzirem no mercado e para expandirem a gama). A entidade nacional reguladora do medicamento (INFARMED), gere a generalidade destes processos. Depois, os médicos têm “aprovar” o produto, mostrando que nele confiam e acreditam, ao praticarem a sua prescrição e ao fazê-lo de forma regular e tão geral a diversos perfis de doente quanto possível. Enfermeiros, farmacêuticos e outros profissionais de saúde influem também no processo de “desbloqueamento” do consumo, os primeiros por via de influirem na administração e decisão da sua necessidade, essencialmente nos casos de internamento do doente; os segundos pelo poder que recentemente lhes é dado, também na venda de MSRM, por ter sido instituído, sempre que permitido pelo médico, a liberdade de escolha de marca pelo consumidor, que se traduz, na generalidade dos casos, no exercício altamente influente da recomendação do farmacêutico.

Ainda antes de a compra se efectuar e muito antes de ocorrer a toma, “desbloquear” a venda implica agir e comunicar eficazmente sobre um conjunto diversificado de instâncias e agrupamentos profissionais, cujo favor depende da conformidade da acção da indústria, ao que creêm ser a forma “correcta” de apresentar e promover a Saúde.  

Há duas éticas essenciais aqui envolvidas, uma geral e uma particular:

1- A ética pública, representada pelos pressupostos valorativos, atitudinais e jurídicos que estão na base da definição do dever público (/político) de promoção e defesa da saúde dos cidadãos e na base da criação, manutenção e funcionamento do Sistema Nacional de Saúde (SNS) (questões acerca do valor da vida humana, do valor social da saúde, dos direitos fundamentais do Homem, da protecção social dos mais fracos, etc.)

2- A ética profissional dos médicos e outros profissionais de saúde (simbolizada pelos princípios de Hipócrates e seus corolários, e concretizada em questões diversas ligadas à responsabilidade social da actividade, à regulamentação da conduta profissional correcta e ao valor social e comunitário da acção dos profissionais de saúde)

Três razões essenciais fazem com que o respeito estrito, cuidadoso e diligente por estas éticas seja tão essencial para a sobrevivência e sucesso da indústria farmacêutica: 

1) O princípio geral de se dever evitar melindrar (e assim alienar) os públicos-alvo da nossa comunicação. Ora, os profissionais de saúde e os agentes públicos ligados à sua gestão estão especialmente expostos ao melindre, dado a sociedade exigir e penalizar especialmente a conduta tida como imprópria, de categorias profissionais que se encontram envolvidas na disponibilização de bens sociais tidos como especialmente importantes para o bem-estar da comunidade, como a Saúde.   

2) O facto de, qualquer reprovação ou penalização social exercida sobre a indústria farmacêutica tender a afectar os viabilizadores da sua actividade. Por exemplo, se um medicamento não seguro provocou efeitos perversos na saúde pública, e a opinião pública o reconhece e censura, são penalizados não apenas os produtores, mas também os prescritores e os responsáveis pela sua AIM (Autorização de Introdução no Mercado), que viabilizaram a sua chegada ao consumidor.

3) O facto de os riscos de 2) agirem em jeito de ricochete sobre a indústria que, na comercialização de MSRM está completamente dependente das licenças e “endorsements” diversos que levam o medicamento do armazém à bolsa de compras do doente ou seus prestadores de cuidados.

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Voltaremos a estas questões com mais detalhe, quando tivermos introduzido outros conceitos essenciais ao seu aprofundamento. Destacaremos apenas adicionalmente ao exposto que, ao lidar com a gestão de um bem social altamente valorizado: a Saúde, e ao visar o lucro a partir dessa actividade, a Indústria Farmacêutica se expõe automaticamente à controvérsia, nomeadamente por suscitar as seguintes questões:

- É ético enriquecer à custa da doença, isto é, do infortúnio de outrém?

- É ético “comercializar-se” a saúde, e em última instância a vida humana?

- É ético negar a quem não pode pagar, o acesso à saúde? 

O Marketing Farmacêutico herda questões éticas diversas, do contexto que o caracteriza. Pergunta-se por exemplo:

- Será o Marketing de Produtos, enquanto promotor da criação da necessidade de consumo, incompatível com o consumo regrado e medicamente informado de medicamentos (não promoverá a sobremedicação e a auto-medicação, por exemplo)? 

- Será o Marketing de Produtos, enquanto desejo de vender mais, incompatível com a defesa da Saúde humana (enquanto necessidade de consumir apenas o estritamente necessário)? 

- Será o Marketing de Produtos, enquanto criador, promotor e rentabilizador de marcas, incompatível com a sobriedade, a seriedade e a cientificidade que se pretende da informação médica e da avaliação técnica do medicamento?

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O menor favor da opinião pública face à indústria e ao seu Marketing, e a desconfiança que leva ainda a que, sobre Marketing Farmacêutico se fale recorrentemente “baixinho”, como iniciámos estas lições por dizer, deriva da convicção de que a actividade da Indústria Farmacêutica é mais um obstáculo que um aliado na promoção da Saúde humana.

Verdade é contudo, por exemplo, que todos desejamos ser tratados por profissionais de saúde perfeitamente actualizados tanto em termos estritamente científicos como técnico-científicos, nas suas áreas de especialidade, devendo ser o investimento necessário a essa actualização custeado em consórcio pelo empregador e pelo profissional. Os custos avultados dessa actualização, e a identificação, na maior parte dos casos, do empregador com o Estado, determinam contudo que não há capacidade de suportar, na ausência do apoio de terceiros, os gastos envolvidos. Sem indústria farmacêutica (que suporta extensamente esses custos, evidentemente esperando retirar daí algum retorno, mas ainda assim, permitindo o acesso à formação), teriamos de esperar médicos muito mais constrangidos do que temos, no acesso à informação que nos pode salvar a vida, ou que pode, pelo menos, incrementar a nossa qualidade de vida.

Também é verdade que as entidades públicas não podem assumir os orçamentos multi-milionários investidos pela Indústria Farmacêutica em Investigação e Desenvolvimento (I&D) (voltaremos a esta questão quando falarmos no “pipeline” de produtos e sua gestão). A ausência desses investimentos implicaria necessariamente menos investigadores, menos centros de investigação, menos medicamentos, menos curas, isto é, menos Saúde. Estaríamos dispostos a isso?

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A reter desta lição 2 as seguintes ideias-chave:

1- O mercado farmacêutico segmenta-se em dois sectores principais: medicamentos sujeitos a receita médica (MSRM) e medicamentos não sujeitos a receita médica (MNSRM);

2- O segmento dos MSRM é incomparavelmente mais interessante em termos economico-financeiros, mas é também incomparavelmente mais complexo em termos de abordagem e mais específico face à média das actividades de Marketing de Produtos;

3- Os MSRM são também chamados “éticos”, dadas as precauções e restrições impostas à sua produção, comunicação e comercialização;

4- Indústria Farmacêutica e Marketing Farmacêutico ”são Ética” no sentido em que poucas outras actividades exigem uma precaução tão grande no que a este aspecto respeita, como condição “sine qua non” de sobrevivência e sucesso;

5- Há que atender a uma ética geral (da Saúde, do SNS) e a éticas profissionais particulares (dos médicos e outros profissionais de saúde);

6- A sociedade exige acima da média aos responsável pela produção de bens e serviços sociais que especialmente valoriza. A Saúde é um exemplo típico. Essa exigência acima da média implica também a penalização acima da média dos comportamentos não aprovados. A precaução e vigilância ética dos principais públicos-alvo da comunicação do Marketing Farmacêutico, é também, em consequência, especialmente severa, o que dita a tónica de toda a gestão da comunicação de MSRM.   

 

Até à lição 3! Um abraço,

 

Maria de Lurdes Fonseca

Rio de Mouro, 14 de Setembro de 2008

Bem-vindos!!!

Quem diria que haveria tantos interessados em Marketing Farmacêutico?

Bem-vindos a todos os que já se inscreveram!

CLMF Lição 1: “Vender medicamentos como quem vende iogurtes”: a questão dos fins e dos meios.

Todos os direitos reservados. Todas as citações devem referenciar a fonte. Reproduções apenas mediante autorização escrita do autor (mfonseca@iscsp.utl.pt). 

 

Falar em Marketing Farmacêutico é ainda recorrentemente, sinónimo de falar baixinho.

Falar baixinho pois se duvida amiúde de se praticar Marketing Farmacêutico não será praticar algo de pouco ético, algo de inconfessável, e algo que equivalha à confissão de se pactuar (indecorosamente) com os poderes económicos instituídos, ou pior, com os grandes conglomerados economico-financeiros.

Afinal, praticar Marketing Farmacêutico não é querer vender mais medicamentos? Mais marcas, mais caixas, mais comprimidos, mais ampolas? Não é procurar influenciar no sentido de que mais médicos prescrevam, prescrevam mais caixas, tratem durante mais tempo, e de que os doentes tomem consequentemente mais medicamentos, de forma mais contínua, e com tanta regularidade e disciplina quanto possível? Sem dúvida que sim, da mesma forma que a prática do Marketing, por exemplo no mercado dos iogurtes, visa a venda de mais marcas, mais ”packs”, mais garrafas e mais vasos, procurando fidelizar consumidores e expandir mercados.

A primeira questão que a sociedade coloca face a este alinhamento de intenções é: não será isso incompatível com o desejo social do consumo regrado, racional e estritamente técnico-científico de medicamentos?

A essa questão segue-se inevitavelmente outra, muito cara não apenas ao público em geral, mas aos profissionais de saúde em particular: praticar Marketing Farmacêutico não é desvalorizar a dignidade particular do medicamento, tratando-o como outro produto qualquer e assumindo (ainda que implicitamente) que vender medicamentos é igual a vender iogurtes?

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A primeira tendência do envolvido com a Indústria Farmacêutica ou com o seu Marketing, é buscar a boa-graça social, afirmando (não uma mentira por acção, mas uma mentira por omissão) que o Marketing Farmacêutico assume essencialmente um papel informativo e prestativo, ao proporcionar aos doentes, médicos e outros profissionais de saúde, informação completa, verdadeira e descomprometida, acerca dos produtos que comercializa. Desta forma, acrescenta-se, é um activo promotor da Saúde e um parceiro valioso dos poderes públicos, do Sistema Nacional de Saúde, dos doentes e da sociedade em geral. 

Ora, é certo que a indústria farmacêutica sabe muito mais que os médicos acerca dos medicamentos que estes prescrevem, que os médicos o reconhecem, e que se apoiam extensamente nos Serviços Médicos e de Marketing dos Laboratórios Farmacêuticos para seu esclarecimento e formação. Se a sociedade em geral, saudável e doente, se os médicos e se os restantes profissionais de saúde crêem na objectividade das informações veiculadas pelos Laboratórios, isso já é outra questão. Sobre isto e por ora, diga-se apenas que será surpreendente para alguns, mas não para quem está envolvido social ou profissionalmente com o mercado, a constatação de que em geral os médicos e os restantes profissionais de saúde confiam sim, largamente, na competência, na seriedade, na objectividade e na conduta ética da indústria farmacêutica. O público em geral é outra história.

Mas voltando à questão em mãos, dizer que o papel do Marketing Farmacêutico é essencialmente o da informação, do apoio e da parceria, é evidentemente não dizer tudo, nem sequer dizer o fundamental.    

De facto, o Marketing dos iogurtes e o Marketing de medicamentos, encontra-se naturalmente por possuir um mesmo conjunto de fitos (não vale a pena negá-lo, sequer a favor do favor social do Marketing Farmacêutico, pois fazê-lo é de facto instigar a desconfiança). O principal objectivo de qualquer actividade de Marketing de Produtos (e os medicamentos são, incontestavelmente produtos), é incrementar resultados comerciais; é, tão simplesmente, gerar receitas.

A promoção da venda de iogurtes e a promoção da venda de medicamentos, unifica-se pois claramente pelos seus fins. Nessa promoção, de facto, o que difere são tão-somente os meios, o que convenhamos, é algo de puramente instrumental, ao género do “quem não caça com cão, caçará com gato”. Há meios de promover a venda de iogurtes simplesmente ineficazes para se vender medicamentos e vice-versa. Em qualquer actividade de Marketing, o sucesso está em dizer aos clientes certos (consumidores, compradores, prescritores, influenciadores ou outros) aquilo que eles querem ouvir. Ora, se por exemplo, a mera sugestão da “mercantilização” da Saúde inibe e melindra os nossos clientes nas suas posturas e convicções éticas, nada como nos abstermos de o sugerir.

 

Discutiremos na próxima lição, se a indústria farmacêutica é uma indústria essencialmente (e diligentemente) ética. Avançamos já, deixando as esperadas objecções para posterior discussão, a resposta. É sim. Necessariamente e sem dúvida. 

A questão que se pode colocar a esse propósito, e que é interessante de se discutir, é se essa preocupação decorrerá fundamentalmente da sua bondade intrínseca/ dos seus valores particulares, ou se, até a questão ética, não será apenas um problema de meios. Poderá ser que a insistência na precaução ética, seja apenas uma forma de “caçar com gato”?

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Ao longo das próximas quatro lições, em jeito de introdução ao mercado, aos seus produtos e à sua promoção, iremos debruçar-nos sobre o que entendemos serem as quatro principais especificidades dos meios do Marketing Farmacêutico:

- A centralidade das questões éticas;

- A especificidade dos públicos-alvo da comunicação;

- Os constrangimentos do mercado;

- As especificidade do produto “medicamento”.

 

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A reter pois desta lição 1 as seguintes ideias-chave:

1- O Marketing Farmacêutico é antes de mais, um tipo específico de Marketing de Produto, sendo Marketing, antes de ser a especificidade dos bens que promove;

2- O Marketing Farmacêutico partilha pois com todas as restantes actividades de Marketing de Produto um mesmo conjunto de fins, subsumidos no objectivo “rentabilização económica máxima do produto”;

3- O Marketing Farmacêutico unifica-se pois pelos fins, face a todos os restantes Marketings de Produto. Nesse sentido, ”vender medicamentos é como vender iogurtes”;

4- Os meios da actividade de Marketing Farmacêutico diferem contudo consideravelmente dos de outras actividades de Marketing, fazendo com que “vender medicamentos não seja como vender iogurtes”;

5- Quatro razões essenciais determinam a enorme especificidade dos meios do Marketing Farmacêutico: o papel da ética no mercado, a especificidade do processo de compra que determina a existência de públicos-alvo de comunicação pouco convencionais, os fortes constrangimentos que caracterizam o mercado farmacêutico e a especificidade do produto “medicamento”.

 

Até à lição 2! Um abraço,

 

Maria de Lurdes Fonseca

Rio de Mouro, 11 de Setembro de 2008

Curso Livre de Marketing Farmacêutico

Caros Alunos, Colegas, Amigos e todos os interessados em Marketing Farmacêutico:

Iniciarei aqui no blog um pequeno Curso Livre em Marketing Farmacêutico, destinado a iniciar os alunos interessados nesta área do Marketing, e apoiar os meus orientandos em projectos finais de Licenciatura e Mestrado associados a estas temáticas.

Funciona da seguinte forma: publicarei semanalmente lições (ou com maior regularidade, sempre que haja disponibilidade) que sucessivamente introduzirão os principais conceitos do Marketing Farmacêutico, que concretizarão as especificidades do Marketing Mix Farmacêutico e que aprofundarão a prática profissional quotidiana deste tipo de Marketing e do Marketing Research que lhe está associado. São lições abertas e que convidam à discussão.

A primeira lição está já publicada. Para acederem a todas basta que cliquem em Categorias>Cursos Livres>Curso Livre de Marketing Farmacêutico.

São todos bem-vindos! Tragam os vossos comentários, sugestões e dúvidas!

 

Nota 1. Para se inscreverem para receber informação sobre o Marketing Farmacêutico, o Curso Livre e outras actividades associadas planeadas para este ano nesta área, enviem um e-mail para mfonseca@iscsp.utl.pt com o assunto “Curso Livre de Marketing Farmacêutico” com Nome, E-mail, Escola (se estudantes ou graduados) e Curso (se estudantes ou graduados).

Nota 2. Colegas e Clientes estão convidados a participar como especialistas, na produção de lições e na partilha das vossas experiências, enquanto profissionais.